20 janeiro 2006

Lost in translation (outra de alemão)

(leia em voz alta, caprichando no sotaque, facilita)

Meu velho tem um amigo alemão que veio para o Brasil ainda adolescente, deixou a família para trás em um país em reconstrução, pagou a passagem lavando o convés do navio e veio fazer a América sem um puto no bolso e sem falar português. Veio, viu e venceu. Mas no caminho até o terceiro "v" deixou algumas histórias hilárias que são relembradas freqüentemente por meu velho para requentar conversas etílicas.

Reza a lenda que, preso no buraco negro burocrático ao chegar no Brasil, teve logo sua primeira lição de português provida pelos funcionários da seqüência de guichês pelos quais teve que peregrinar. - "Aasbf'lo soe? Nooe ah ki, eh ali!" - "???" - "Ali" - "Peotahuie, 'leienuuetls ali!". Lá pelo quinto guichê ele deduziu o significado de "ali": o balcão seguinte, o próximo barnabé, a esperança de atendimento.

O português ainda prega peças no amigo germânico de meu velho, que faz questão de manter o sotaque, tão forte que é quase caricato - eu sempre suspeitei que ele fala um português castiço, mas mantém "aquéia sutaqui rastada e fohte" de propósito...

Quando a inflação brasileira fazia com que o dinheiro na carteira fosse roído mais rapidamente do que as traças conseguiriam e o cheque e a correção monetária eram as únicas armas da classe média na labuta diária para manutenção de seu padrão de vida, o alemão amigo do meu velho extraviou seu talão de cheques, o que, em uma época pré-automação bancária, era algo que dava muita dor de cabeça.

Chega o alemão na boca do caixa. "Pô favô, eu pê'di minha cheque". "Pois não, senhor. Quando o senhor pediu seu cheque?". "Foi no cua'ta-fêra". "Um momento que vou consultar o cadastro". Uma consulta rápida a uma gaveta fichário depois. "Perdão, senhor. Aqui consta que o senhor pediu seu cheque na sexta-feira". "Non, non....foi no cua'ta-fêra". "Há algum engano, senhor. Aqui diz que foi na sexta-feira". "O senhôrra qué sabê mais du que eu?!? FOI NO CUA'TA-FÊRA!!!!". "Não, senhor, foi na sexta-feira. O senhor recebeu seu talão de cheques?". "Pôta méda, má é clarro que ricibi". "Recebeu?".

"É clarro que ricibi, carraio, SENON NON TINHA PE'DIDO!!"