18 fevereiro 2006

Dias 5, 6 e 7. Ossadas, pingüins, whisky e churrasco

Baleia de CosteauMuito tempo sem postar, muito a relatar, muita coisa acontecendo aqui e no Brasil.

Os arredores de Ferraz são repletos de ossadas de baleias, mortas no auge da indústria baleeira, quando as águas antárticas ficavam, literalmente, vermelhas com o sangue dos animais mortos para virar óleo, sabão, perfume, pentes e explosivos. Os mais impressionantes são as vértebras, aos montes, convenientemente espalhadas para assento dos transeuntes enquanto admiram a vista. São igualzinhas vértebras humanas (fala um herniado, que entende do assunto, portanto), só que do tamanho de uma mesa de centro. Jacques Cousteau, em visita à Ilha do Rei George, montou o esqueleto da foto acima, que hoje repousa em seu leito de líquens e serve de ninho de skuas (que me impediram de me aproximar para ver melhor). Mas não seria difícil montar muitos outros esqueletos completos.

Há três espécies de pingüins na baía do almirantado: adélie, papua e antártico.

Travei contato com exemplares das duas últimas. São realmente engraçados, tudo o que a música da "Arca de Noé" diz. Curiosidade: suas fezes são vermelhas, devido à presença de krill em sua dieta. Você está andando pela praia, vê uma pedrinha diferente dos demais cascalhos, vermelhinha....é bosta congelada.

Voltei a bordo do Ary Rongel, onde houve a festa de aniversário de um oficial, quando aproveitaram para fazer uma pequena solenidade para me dar as boas vindas. É notável as semelhanças entre a conduta cerimonial da Marinha e do Itamaraty - com a diferença de que eles são muito mais sérios. Nunca tinha convivido por tanto tempo com milicos. É impressionante como a mentalidade militar é preto no branco, não é um maniqueísmo tolo, mas a convicção de estar fazendo algo correto. É reconfortante saber que há pessoas tão comprometidas com ideais e com a coletividade quando tudo que me resta é esse niilismo individualista. Saio daqui com as melhores impressões da Marinha. Ary Rongel

Na noite do dia 16/2 o vento subiu para 40 nós. Dá para sentir o navio vibrando, ouvir o vento forte do lado de fora. A lua permitiu ver os carneirinhos marombados ao redor do navio, chovia de baixo para cima. De assustar. Um marinheiro me disse que no inverno o vento bate nos 90 nós. A voz de Deus. E o que ouvi naquela noite foi só o sussurro.

Mas ontem o dia amanheceu como se a Baía do Almirantado fosse o Lago Paranoá, um espelho. Almoço com o Comandante do Navio mais o atual e o futuro Comandante da Estação. Cardápio: Feijoada. Regada a Chivas com gelo antártico, repleto de bolhas de ar centenárias, que fazem barulho à medida que o gelo derrete.

Voltei à Estação e saí batendo perna com o alpinista pela costa oeste da península onde está Ferraz. Mais ossos de baleia. E mais outros. E pingüins preguiçosos e skuas agressivas. Paramos no abrigo de um cientista na Punta Plaza, a beirinha da península, para tomar café. Estava um dia lindo, sol, fazia calor até. Até que dobramos a Punta Plaza e passamos a encarar de frente um vento de uns 20 nós, o que nos obrigou a vestir o "brucutu", aquele gorrinho que deixa só os olhos de fora. Não pelo frio, mas pelo vento. Fomos até um refúgio chamado sarcasticamente de "Ipanema". Ary Rongel

Uso um daqueles óculos cujas lentes reagem à radiação ultra-violeta, escurecendo. Não deixo de ficar impressionado com o tanto que as lentes ficam negras aqui, mesmo que o sol não esteja dando as caras. O buraco de ozônio logo acima de nossas cabeças.

Na volta, estava rolando um churrascão na Estação. Desceu o pessoal do navio, inclusive pesquisadores búlgaros que vão pegar uma carona para Ushuaia. Cerveja rolando solta, gelada com blocos de gelo naturais, o alarme de incêndio desligado por causa da fumaça da churrasqueira. Um búlgaro trouxe um violão. Logo estava acompanhando os pagodeiros. O sambão comendo, mesmo sem haver uma palavra sequer em um idioma comum, búlgaros e brasileiros tocando juntos, samba e polca (ou algo que parecia uma polca). Conhece a piada do búlgaro que estava sambando em um churrasco na antártica? Insólito.

Hoje a manhã foi dedicada a uma faxina geral. Lá foi o diplomata com a peãozada do Arsenal da Marinha limpar a carpintaria da Estação. Não fiz feio, mas estou certo que tenho que agradecer a cada instante por ter passado nesse concurso...

Almoço: Rabada. Quanto será que já engordei aqui?

De tarde choveu intermitentemente. Temperatura por volta dos 5°C, vento nos 10 nós, sensação térmica de -5°C. Aproveitei uma brecha, parecia que o tempo tinha firmado, recebi autorização e voltei lá para a Baleia de Costeau para tirar fotos. Ficaram ótimas, o sol saiu, a luz estava ideal. No caminho de volta, visitei o Morro da Cruz, onde há 4 cruzes em homenagem a pesquisadores britânicos que morreram nessa região e uma cruz para Alberto Poppinger, do Programa Antártico Brasileiro, que faleceu aqui em 1990 em decorrência de um ataque cardíaco. O passeio todo não durou mais do que meia hora, mas aquele sol todo virou uma chuva fina, fria, horizontal, com uma rapidez que nunca vi. É a Antártica. Aquela caminhada morro abaixo me fez lembrar de todos os relatos sobre exploração polar que já li e ficar ainda mais admirado, in awe.


O mundo muda
A gente muda
O mundo muda
A gente muda
O mundo muda
Karnak

2 comentaram:

Michelle disse...

Estou super feliz por vc! Continue postando notícias e fotos que estamos acompanhando...

Beijos meus(Mi) e um abração do Jafet.

Luisfel disse...

Eu só queria tomar o scotch on the natural rocks...

muito bom, fi, divirta-se bastante...