07 março 2007

De minhas origens 5: Meu primeiro salário

Em determinado momento da minha adolescência, determinado a ser diferente dos meus colegas de colégio (os mesmos colegas cuja aprovação eu buscava tanto...babaca que sou), resolvi aproveitar as férias escolares para fazer algo completamente inusitado para um rapaz de classe média brasileira: arrumei um emprego.

Meu velho consultou uns amigos e lá fui eu ser office boy em um escritório de despachantes aduaneiros por um mês. A situação era um tanto particular, já que há todo um sindicato de boys (ou pelo menos havia) com reserva de mercado no Porto, então eu era visto como um bicho meio estranho por lá, trabalhando, sem precisar, enquanto poderia estar indo para a praia.

A existência de despachantes é sinal de que há algo errado. Se houver ampla aceitação de sua existência, então, é prova cabal de insanidade sistêmica. Uma pessoa contratada para agir nos meandros da burocracia, um funcionário especializado só nisso, em recolher documentos, taxas, assinaturas e levar ao locais certos. É a reação do mercado ao paquidermismo do Estado. E é também a terceirização da corrupção: o Estado cria dificuldades, o Barnabé vende facilidades e o despachante é o intermediário que possibilita que a iniciativa privada atue.

Ou talvez eu que seja liberal demais e não veja a função social disso tudo, algum tipo de keynesianismo no estilo cavar buracos de dia para mandar tapar de noite, uma verdadeira política de pleno emprego, uma máquina que sustenta a economia da cidade.

Recordo que naquele mês em particular havia sido exposto um esquema de corrupção que dificultou a vida dos despachantes, que passaram a ter que trabalhar com mais cuidado, pelo menos até o assunto sair da mídia. O despachante-mor passava pela sala louco de raiva pelos atrasos causados por essa dificuldade adicional, e as conseqüentes perdas para seu bolso, babando argumentos a favor da banalização dos subornos e de sua validade como norma consetudinária na profissão. Até a máfia tem suas regras.

Ainda bem que eu ficava bem longe disso tudo, passava o dia todo na rua, recolhendo documentos, reconhecendo firmas...minha maior realização foi ter segurado um navio com peças para a Ford por todo um fim de semana porque errei em uma conversão de câmbio e o guichê fechou antes de poder corrigir o erro no fim de uma sexta-feira. Imagina como a chefia ficou contente.

Olhando em retrospectiva, foi uma época bacana. Eu nunca conheci o centro de Santos tão bem como naquela época, hoje já esqueci os nomes das ruas e os nomes das pessoas com quem trabalhei. Talvez tenha contribuido, conscientemente ou não, para minha prematura decisão de ir embora: vivenciei um pouco o dia a dia da espinha dorsal da cidade e vi que não poderia fazer minha vida em Santos.

Foi uma boa dose de realidade, recomendo a experiência para pais ciosos da formação do caráter de seus filhos.

Mas toda essa digressão é só para contar o que me disse meu primeiro chefe ao pagar meu primeiro salário. Uma frase que talvez resuma o valor do dinheiro, altíssima filosofia. Eu nem esperava receber nada, ninguém havia falado de salário até então, saí feliz da vida com um pouco menos do que um salário mínimo no bolso, em notas de dez. O chefe contou meticulosamente, contou de novo, eu contei junto para verificar, ele fez um rolinho, prendeu com uma liguinha de escritório, me estendeu o dinheiro e, antes de largar sua ponta do rolinho, me disse palavras que nunca esquecerei, uma frase que me vem à mente toda vez que vejo meu contracheque:


Hoje, não tem puta triste!


1 comentaram:

claudia lyra disse...

Rapá! Essa frase é tuda! Poxa... neste texto tão sério, quase morri de rir quando li isso.