29 janeiro 2008

Às armas!!

Enfrento o calor de hoje de manhã e vou às 08h00 para a Prefectura Naval, o equivalente local da Capitania dos Portos, para dar início aos trâmites legais necessários do Veleriño. Tenho todos os documentos e minha firma no formulário reconhecida pelo cartório, conforme fui instruído anteriormente.

Faz calor. O inferno não pode ser muito pior do que uma repartição pública sem ar condicionado. Chega minha vez no balcão.

"A ver...a ver...esto está bien, esto también...aha! Falta el sello del Colegio de Escribanos!"

"Hein?! No, está acá" - aponto para a apostila que foi anexada ao formulário comprovando que minha assinatura é igual àquela que está em minha carteira de identidade argentina que, por acaso, está diante do barnabé engomadinho que acusa a falta do tal carimbo.

"No, este es el reconocimiento del escribano. Falta el sello del Colegio de Escribanos - es que hay muchos escribanos truchos". Seguiu-se uma frustrada, e desde o princípio sem esperanças, tentativa de reclamação junto ao responsável pela repartição, um intento de pelo menos dar início ao trâmite.

A lógica é a seguinte. Há um monte de mentirosos no Estado. Logo, o Estado supõe que TODOS são mentirosos. Portanto, não basta a apresentação de documentos, sua assinatura e sua presença diante do barnabé, afinal, para início de conversa, suposição básica, você É um mentiroso.

Para resolver isso, existe uma pessoa reconhecida pelo Estado que, por módicos preços, atesta que você não é um mentiroso e que o documento emitido pelo Estado é mesmo o documento emitido pelo Estado que diz que você é quem você diz ser.

Mas existe um montão de mentirosos por aí, até mesmo, pasmem, entre aquelas pessoas reconhecidas pelo Estado que podem atestar sua boa fé. Mas não se preocupem, há uma organização que reúne essas pessoas de boa fé autorizadas a reconhecer sua boa fé, e esta organização pode atestar a boa fé daquele que atestou sua boa fé.

E quem garante a boa fé dessa organização?!?! Ora, o Estado!! Mas há um monte de mentirosos no Estado...

***

Não é simplesmente um caso de criar dificuldade para vender facilidade, o buraco é mais embaixo, a conclusão aqui não é que o Estado seja corrupto. A existência de escrivães, cartórios, despachantes, colégios de escrivães e afins é prova de que o Estado é a corrupção e a corrupção é o Estado. Por que simplesmente não incluem o valor da propina na taxa a ser paga pelo trâmite? Afinal, a taxa não é mais do que isso, uma extorsão de alguém que pode dificultar sua vida se quiser, não faz diferença se esse alguém é uma entidade coletiva ou o engomadinho na sua frente.

Me senti um otário por ter perdido a manhã, de terno, suando naquela filial do inferno; um otário sequer digno da sugestão de pagar um cafezinho, uma cervejinha, deixar um por fora. Deu vontade de invocar Bakunin, baixar o anarquista, derrubar o edifício na base do coquetel molotov. Domesticado como sou, engoli em seco, ajustei o colarinho e voltei para minha repartição, já que tenho que carimbar alguns papéis também...

1 comentaram:

eduardo disse...

Tenho sofrido ultimamente com a Receita Federal para tirar passaporte, isso comprova que a "burrocracia" ibérica impera nos nossos países latino-americanos.