03 março 2009
11 dezembro 2007
Campanha: Vote no Simões!!
O Jornal O Globo está com uma dessas enquetes de fim de ano, para escolher as personalidades que "fazem diferença", o Prêmio Faz Diferença. Na categoria Ciência/História, está o Professor Jefferson Cardia Simões, o cara que mais entende de gelo no Brasil, um dos principais pesquisadores do Programa Antártico Brasileiro e o primeiro brasileiro a chegar ao Pólo Sul por via terrestre (outros voaram até lá ou andaram só os últimos quilómetros, mas Júlio Fiadi promete mais em breve).
Votem no Professor Simões!!
27 junho 2007
Você é meu herói de infância...sem querer te fazer sentir velho
Filma eu, SêoTubo!!
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F.
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01 junho 2006
Travessia polar brasileira
1 - Professor Rubens Junqueira Vilella: em 1962, integrando o programa antártico norte-americano;
2 - Professor A.C. Rocha Campos: por duas vezes, em 1981 e 1985, salvo engano. Uma como pesquisador e a outra acompanhando o
3 - Embaixador Luiz Filipe de Macedo Soares: então Conselheiro e chefe da minha saudosa Divisão no Merré, por ocasião de um seminário na Geleira Beardmore organizado no âmbito do Tratado da Antártica, em 1985;
4 - Julio Fiadi: em expedição particular em 2001. Que eu saiba, Fiadi é o único brasileiro a ter pisado nos dois pólos. Acompanhou Amyr Klink às Geórgia do Sul uma vez também.
Com exceção de Fiadi, que chegou por via aérea até o paralelo 89º Sul e seguiu o resto de esqui, todos os outros foram diretamente à Estação Amundsen-Scott de avião.
A quinta pessoa dessa lista é o Professor Jefferson Cardia Simões, que em 2004 acompanhou uma perna da Expedição Científica Transantártica Internacional (ITASE) organizada pelo Chile.
A grande diferença é que ele se deslocou por 2.400Km, ida e volta, entre a Estação Patriot Hills e o Pólo Sul em um comboio puxado por um trator polar, recolhendo testemunhos de gelo (colunas de gelo para análise de partículas que servem para pesquisas sobre mudança climática). Na minha opinião é uma diferença qualitativa que o torna o primeiro brasileiro a ter chegado ao pólo, não simplesmente estado lá.
O feito não teve lá muita repercussão na imprensa, infelizmente - pelo menos não a repercussão devida. A presença brasileira na Antártica e as pesquisas no âmbito do Programa Antártico Brasileiro estão muito aquém do potencial. Mais importante, é somente por meio da pesquisa científica que o Brasil tem como participar efetivamente em assuntos antárticos. Os temas discutidos no âmbito do Tratado da Antártica surgem primeiro na comunidade científica. Se não for dado o valor devido ao Programa Antártico Brasileiro ficaremos à margem de questões internacionais importantes que ultrapassam o significado de esta ou aquela pesquisa.
Ciente disso e com olho na divulgação necessária do tema para atrair apoio para a participação do Brasil no Ano Polar Internacional, o Professor Simões colocou no ar um site relatando toda sua expedição, com muitas fotos e vídeos. Não achei a navegação das mais amigáveis, mas está muito interessante. É o embrião de uma possível travessia polar exclusivamente brasileira, o início de uma presença brasileira no continente, além das ilhas da Península Antártica. Vai lá: www.ultimafronteira.com.br.
26 fevereiro 2006
Quer fazer Deus rir? Faça planos.
Agora que é oficial, posso falar abertamente, ao invés de ficar deixando dicas subliminares no blog (O mundo muda. A gente muda...). No dia 13/2, quando estava em Punta Arenas prestes a embarcar para a Antártica, o Instituto Rio Branco me ofereceu uma das vagas para estudar no Instituto del Servicio Exterior de la Nación, Isen, a academia diplomática argentina.
Graças ao link via satélite de Ferraz, pude entrar no circuito - seria tragicamente engraçado voltar ao Brasil e descobrir que fui preterido porque não pude ser contatado. Com a ajuda dos amigos (obrigado a todos), esclareci que poderia sim me apresentar em Buenos Aires na data exigida, 1º de março, quarta-feira de cinzas, bastaria mudar minha passagem e abrir mão de meus planos de férias (o que não foi feito sem dor).
Obtido o aval da chefia, passei ainda alguns dias em ansioso suspense por uma confirmação oficial, que chegou finalmente na tarde da última sexta-feira, véspera de Carnaval. Nesse tempo todo postando, estive tenso, com a cabeça em BSB e BsAs e os pés aqui. Em algumas poucas horas embarco em um avião a caminho de Buenos Aires, onde antes de ir para algum hotel o taxista vai me levar para comprar um terno, uma gravata e um par de sapatos, pois só levo comigo meu mochilão austral.
Tudo ocorreu tão rápido, confesso que estou com frio na barriga. Tenho calafrios só de imaginar o que me espera para organizar minha mudança à distância. Não sei se foi a decisão correta, mas sei que, fosse qual fosse, eu ficaria imaginando a alternativa..."e se?". Foi uma decisão complicada porque não queria sair nessas condições, quase um fugitivo, de onde estou trabalhando agora, mas me pareceu uma oportunidade boa demais para deixar passar e, felizmente, minha chefa compreendeu isso (adoro essa mulher).
Abracei a mudança. Vocês não fazem idéia de como estou feliz aqui, eu só lamento não poder dividir este momento de forma apropriada com meus amigos. Eu preferia contar isso tudo pessoalmente, de preferência em meio a alguns chopps no Bar Brasília, ou pelo menos por email, individualmente, mas parti de BSB sem minha agenda de contatos e não sei quando terei oportunidade de retornar ao cerrado. Espalhem a notícia por favor, abraços e beijos a todos, e tomem umas por mim. Assim que eu tiver um endereço e un teléfono, vocês serão devidamente informados.
Bom Carnaval para vocês, o Explorador vai levar sua rede para Buenos Aires.
Tudo conspirou a meu favor, mesmo meus momentos mais difíceis... Assim acabarei virando um fatalista, que será, será....Talvez eu tenha mesmo nascido virado para a Lua, como diz minha tia. Ou talvez tanta coisa boa seja alguma forma de compensação cósmica pela sacanagem que me foi feita em 2005. Se for o caso, já está pago, com juros - e quem saiu no lucro nessa história certamente fui eu.
Quem sabe, talvez eu até vá agradecer a falecida...
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25 fevereiro 2006
Dia 14. Museus. Trem do Fim do Mundo. Parque Nacional.
Passei o resto do dia anterior zanzando pela cidade, perdido de propósito. Cheguei a uma parte da cidade nada charmosa, que provavelmente só nao é uma favela porque o pessoal morreria de frio.
O ponto alto foi a descoberta, indicaçao do oráculo Lonely Planet, de uma livraria especializada em livros e DVDs sobre exploraçao antártica...doeu no bolso, mas cortei alguns itens da minha wishlist da Amazon.
O ponto baixo do passeio foi na volta descobrir que Amyr Klink esteve no Ary Rongel, visitando o Comandante por algumas horas. Ele está a bordo do Nordnorge, cruzeiro antártico que partia enquanto eu recebia a notícia, perdi a oportunidade de tietar meu herói em seu próprio habitat.
Museus
Visitei o Museu do Fim do Mundo e o Museu Yagán. Lugares extremamente pequenos, dá para ver tudo em menos de 15 minutos cada, mas jeitosos. No primeiro deparei-me com uma informaçao frustrante. Em parte, a mitologia náutica em torno destas paragens e do Cabo Horn é resultado de um esquema de golpe em companhias de seguro. Com a revoluçao náutica trazida pelo vapor e, depois, pelo óleo, aproveitando-se do alto índice de naufrágios e do isolamento desta regiao, companhias de tranporte e carga mandavam seus capitaes darem sumiço nas embarcaçoes à vela em naufrágios forjados nestas bandas. Simplesmente nao havia como verificar o sinistro e o dinheiro do seguro era utilizado para renovar a flotilha. Prefiro a lenda.
Os Yagán eram os nativos da parte sul da Terra do Fogo. Ushuaia quer dizer "Baía voltada para o poente" em sua língua. Eram poucos, alguns milhares e nao deixaram muitos vestígios de sua passagem pela Terra. Nômades, nao possuíam escrita, sequer faziam pinturas rupestres (as camisetas vendidas aqui com símbolos indígenas sao de povos da Patagônia), e tudo o que se sabe deles hoje deve-se aos missionários ingleses e salesianos que primeiro se estabeleceram por aqui. Sucumbiram às doenças européias e à fome trazida pela escassez de baleias e lobos-marinhos, seu principal alimento, que por sua vez foram dizimados por baleeiros e caçadores de foca. Construíam impressionantes canoas de cortiça que as mulheres, as únicas que sabiam nadar, manejavam com destreza. Nao tinham âncoras, amarravam as canoas nas enormes algas (kelps) que crescem por aqui. Os homens cuidavam do arpao e as crianças mantinham o fogo aceso nas canoas.
Nao eram assim tao miseráveis como supôs Darwin ao ver um bando de índios gordos e pelados nessas terras frias. Nao usavam roupas (salvo um manto de pele de lobo-marinho em dias mais frios) porque roupa significa acumulo de umidade e, conseqüentemente, desconforto. Era muito mais fácil manter-se aquecido e impermeável cobrindo o corpo de gordura e ficando perto do fogo.
O fogo era elemento constante e vital na cultura Yagán. Mantinham alguma brasa sempre acesa, mesmo em suas canoas, para aquecimento e para evitar o trabalho de acender uma nova fogueira a cada parada (lembram daquele filme insuportável e onipresente nas escolas do segundo grau, "A Guerra do Fogo"?). Usavam também como forma de comunicaçao com as canoas distantes a caçar. Quando Magalhaes chegou ao extremo sul da América pela primeira vez, viu diversas dessas fogueiras, mas nao viu gente - daí Terra do Fogo.
Trem do Fim do Mundo
Você sabe que entrou em uma armidilha para turistas quando se vê cercado de aposentados e há uma gravaçao em alto-falantes com explicaçoes em japonês e coreano sobre o lugar.
Assim como Punta Arenas e Hobart, os outros pontos de entrada da Antártica, Ushuaia surgiu de uma colônia penal criada no intuito de ocupar e reivindicar estas terras para o Estado. A única forma de comunicaçao da cidade com o mundo exterior era pelo mar, mas havia uma linha férrea de 25km ligando o presídio a lugar nenhum. Todo dia, saía uma locomotiva transportando presos para cortar lenha nos bosques em torno da linha, para servir de combustível para os geradores e aquecedores do presídio e da cidade. Hoje, o presídio é uma base militar e os últimos restaurados 7Km da linha férrea sao uma armadilha para turistas, uma versao melhorada do trenzinho da finada Cidade da Criança de Sao Bernardo que percorre um bosque de tocos mortos. O jeito mais caro de entrar no Parque Nacional da Terra do Fogo.
Parque Nacional da Terra do Fogo
Fugi o mais rápido possível da armadilha e me botei a caminhar pelo parque. É uma reserva ambiental restrita, há poucas trilhas, bem demarcadas, a percorrer. Escolhi a Senda Costera, 6,5Km margeando a Baía Ensenada até quase a fronteira com o Chile, umas 3 horas de caminhada. Deu para cansar.
Trechos de bosque bastante fechado intercalados por praias de cascalho com uma vista incrível da Cordilheira ao fundo, para sentar, apreciar e refletir. O frio e a neve do inverno impedem que a matéria orgânica se decomponha completamente, em alguns trechos dá para ver que nao se está pisando em solo, mas em um enorme emaranhado do que um dia foram folhas, galhos e troncos. É como andar em um imenso xaxim, com uma generosa e grudenta camada de lama nas áreas onde a água se acumula. Estou com os joelhos doendo, mas valeu.
24 fevereiro 2006
Dia 13. Muelle Afasyn
Sendo o Fim do Mundo, Ushuaia atrai muitos viajantes hard core. Passei a manha no pier (Muelle) do clube AFASyN. Clube eh gentileza minha, ha uma casinha e um pier mal cuidado. Mas nesse pier, a maior concentracao de veleiros com mais de 40 pes que jah vi, muitos com mais de 50.
Sao cruzeiristas que escolheram a Terra do Fogo para ficar uns tempos ou gente voltando da Antartica ou em transito de suas voltas ao mundo. Dava para ouvir o pessoal conversando dentro dos navios, barulho de talheres, criancas brincando - verdadeiros lares flutuantes. Troquei uma ideia com uns tiozinhos aposentados ingleses dando uma voltinha pela America do Sul em um Swan 52 com um jogo completo de catracas eletricas. Assim eh facil, diria provavelmente Slocum.
Mas nao sao soh veleiros que fazem parte da populacao de viajeros de Ushuaia. Assim como em Punta Arenas, ha um cybercafe em cada esquina, mochileiros abundam, assim como endinheirados que param por aqui em seus mega cruzeiros antarticos. O que me surpreendeu, no entanto, foi um caminhao estacionado perto do Afasyn, um Unimog com uma familia inteira de franceses lah dentro, inclusive um bebe de colo. Estao dando a volta ao mundo, na metade da etapa America Latina. Il reste encore l'Afrique...
Ah...o bicho-da-viagem...
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Noite do dia 12. Grito de Carnaval no Fim do Mundo
Bate culo, bate culo...
E o Funk Carioca chega até o Fim do Mundo...
23 fevereiro 2006
Dias 10, 11 e 12. O Velho Corsário.
21 fevereiro 2006
Dia 10. One post for the road
Caiu a ficha que vou embora e bateu uma tristeza...um banzo precoce, como se eu estivesse deixando uma namorada para trás. Ao mesmo tempo, uma hesitação pelo que (eu não sei o que) vem pela frente.
Ontem segui o alpinista até a "Casinha do Cachorro", um morro atrás da Estação que proporciona uma vista fantástica da Enseada McKellar e da Baía do Almirantado. Há muitos ninhos de skuas por lá, o vento forte permitia que elas ficassem paradas a poucos metros sobre nossas cabeças sem bater as asas. Alguns minutos sentados quietinhos e elas não mais nos viam como ameaça. Fotos, fotos até perder a sensação dos dedos. Eram umas 18h e o sol resolveu dar as caras. Um presente de despedida desta ilha onde a luz é sempre ofuscante, mas o sol quase nunca aparece. Como se fosse uma ilha da ficção, sempre coberta de nuvens, inexplorada, invisível a olhos eletrônicos (o quanto da Antártica é parte de nosso imaginário?).
Foi-me dito que não é a melhor época para vir, o fim do verão, os animais migratórios já se mandaram em sua maioria, fim de temporada, sem projetos de pesquisa para acompanhar, apenas fainas de carga entre o Ary Rongel e a Estação. Bobagem, quem me conhece sabe que estou em êxtase só por estar aqui. Tive oportunidade de excursionar pelos arredores de Ferraz, acompanhar o dia-a-dia da Estação e conhecer muita gente que dedica anos de sua vida ao Programa Antártico Brasileiro.
Passar longos períodos aqui é difícil, mesmo com todo o conforto e os recursos para comunicação. Para ficar nesse isolamento, não é só necessário ter uma boa relação com os colegas, mas, principalmente, é vital estar bem consigo mesmo, "Ponto Nemo". Quem se sujeita a isso precisa ser gente boa para aturar a si mesmo nessas condições, e eu só conheci pessoas bacanas aqui.
Embarco em poucas horas para encarar o "Velho Corsário". A zona de alta pressão parece ter se firmado e esperamos uma travessia tranqüila.
O próximo post só em Ushuaia, daqui a uns 4 dias. Até lá.
20 fevereiro 2006
Dias 8 e 9. Enseada McKellar, Estação Arktowski e Xixi de Bisão
Piada pronta
Os oficiais médicos na marinha recebem a alcunha de "Doc". A especialidade do novo "Doc" da Estação é proctologia. O "Doc" é "Proc" e fica andando com o dedo em riste por aí, ameaçador.
18 fevereiro 2006
Dias 5, 6 e 7. Ossadas, pingüins, whisky e churrasco
Muito tempo sem postar, muito a relatar, muita coisa acontecendo aqui e no Brasil.
Os arredores de Ferraz são repletos de ossadas de baleias, mortas no auge da indústria baleeira, quando as águas antárticas ficavam, literalmente, vermelhas com o sangue dos animais mortos para virar óleo, sabão, perfume, pentes e explosivos. Os mais impressionantes são as vértebras, aos montes, convenientemente espalhadas para assento dos transeuntes enquanto admiram a vista. São igualzinhas vértebras humanas (fala um herniado, que entende do assunto, portanto), só que do tamanho de uma mesa de centro. Jacques Cousteau, em visita à Ilha do Rei George, montou o esqueleto da foto acima, que hoje repousa em seu leito de líquens e serve de ninho de skuas (que me impediram de me aproximar para ver melhor). Mas não seria difícil montar muitos outros esqueletos completos.Há três espécies de pingüins na baía do almirantado: adélie, papua e antártico.
Voltei a bordo do Ary Rongel, onde houve a festa de aniversário de um oficial, quando aproveitaram para fazer uma pequena solenidade para me dar as boas vindas. É notável as semelhanças entre a conduta cerimonial da Marinha e do Itamaraty - com a diferença de que eles são muito mais sérios. Nunca tinha convivido por tanto tempo com milicos. É impressionante como a mentalidade militar é preto no branco, não é um maniqueísmo tolo, mas a convicção de estar fazendo algo correto. É reconfortante saber que há pessoas tão comprometidas com ideais e com a coletividade quando tudo que me resta é esse niilismo individualista. Saio daqui com as melhores impressões da Marinha.
Na noite do dia 16/2 o vento subiu para 40 nós. Dá para sentir o navio vibrando, ouvir o vento forte do lado de fora. A lua permitiu ver os carneirinhos marombados ao redor do navio, chovia de baixo para cima. De assustar. Um marinheiro me disse que no inverno o vento bate nos 90 nós. A voz de Deus. E o que ouvi naquela noite foi só o sussurro.
Mas ontem o dia amanheceu como se a Baía do Almirantado fosse o Lago Paranoá, um espelho. Almoço com o Comandante do Navio mais o atual e o futuro Comandante da Estação. Cardápio: Feijoada. Regada a Chivas com gelo antártico, repleto de bolhas de ar centenárias, que fazem barulho à medida que o gelo derrete.
Voltei à Estação e saí batendo perna com o alpinista pela costa oeste da península onde está
Uso um daqueles óculos cujas lentes reagem à radiação ultra-violeta, escurecendo. Não deixo de ficar impressionado com o tanto que as lentes ficam negras aqui, mesmo que o sol não esteja dando as caras. O buraco de ozônio logo acima de nossas cabeças.
Na volta, estava rolando um churrascão na Estação. Desceu o pessoal do navio, inclusive pesquisadores búlgaros que vão pegar uma carona para Ushuaia. Cerveja rolando solta, gelada com blocos de gelo naturais, o alarme de incêndio desligado por causa da fumaça da churrasqueira. Um búlgaro trouxe um violão. Logo estava acompanhando os pagodeiros. O sambão comendo, mesmo sem haver uma palavra sequer em um idioma comum, búlgaros e brasileiros tocando juntos, samba e polca (ou algo que parecia uma polca). Conhece a piada do búlgaro que estava sambando em um churrasco na antártica? Insólito.
Hoje a manhã foi dedicada a uma faxina geral. Lá foi o diplomata com a peãozada do Arsenal da Marinha limpar a carpintaria da Estação. Não fiz feio, mas estou certo que tenho que agradecer a cada instante por ter passado nesse concurso...
Almoço: Rabada. Quanto será que já engordei aqui?
De tarde choveu intermitentemente. Temperatura por volta dos 5°C, vento nos 10 nós, sensação térmica de -5°C. Aproveitei uma brecha, parecia que o tempo tinha firmado, recebi autorização e voltei lá para a Baleia de Costeau para tirar fotos. Ficaram ótimas, o sol saiu, a luz estava ideal. No caminho de volta, visitei o Morro da Cruz, onde há 4 cruzes em homenagem a pesquisadores britânicos que morreram nessa região e uma cruz para Alberto Poppinger, do Programa Antártico Brasileiro, que faleceu aqui em 1990 em decorrência de um ataque cardíaco. O passeio todo não durou mais do que meia hora, mas aquele sol todo virou uma chuva fina, fria, horizontal, com uma rapidez que nunca vi. É a Antártica. Aquela caminhada morro abaixo me fez lembrar de todos os relatos sobre exploração polar que já li e ficar ainda mais admirado, in awe.
O mundo muda
A gente muda
O mundo muda
A gente muda
O mundo muda
16 fevereiro 2006
Dia 5. Prova factual.
15 fevereiro 2006
Dia 4. Ferraz
Fim de noite de 15/2. Tanta coisa acontece e são tantas horas de luz por dia que eu tive que checar minhas anotações para saber se este era o dia 4, 5 ou 6 da viagem.
O tempo não colabora muito, tudo encoberto, 0°C com sensação térmica por volta de -10°C devido ao vento entre 10 e 15 nós, com rajadas de ventos cataclísticos (que eu conhecia na literatura polar como willywaws) - pancadas fortes e curtas, imprevisíveis, que descem das regiões mais elevadas pelas geleiras (no caso aqui da Geleira Stenhouse e da Barreira Ajax, em frente à Estação, do outro lado da baía), fenômeno que ocorre na Antártica e na Patagônia. Mawson, o explorador australiano, acreditava que acontecem simplesmente pela ação da força da gravidade, uma avalanche de ar frio descendo encosta abaixo. Se non è vero, è ben trovato.
O pessoal no Rongel é super simpático, o ambiente muito mais informal do que eu esperava, mas dá para perceber que eles já estão de saco cheio disso aqui e querem voltar logo para casa. Esse espírito contrasta completamente da empolgação do paisano aqui, que fica enchendo a paciência deles no passadiço tirando fotos. Já tirei mais de 100, tive que dar uma editada nas piores para poupar o chip. Ferraz fica na parte norte da Baía do Almirantado, caracterizada pelas geleiras mencionadas acima e por montes negros de 100-200 metros da mais negra rocha vulcânica, muito porosa devido às temperaturas extremas.
Não há muito o que fazer no navio, então na primeira oportunidade embarquei em um zodiac (bote inflável) para Ferraz. A temperatura da água fica em torno de 2°C, o que dá mais ou menos 90 segundos de vida para o pobre paisano que cair na água, por isso é necessário vestir por cima da jardineira e do casaco, com bota e tudo, uma roupa especial inflável e semi-seca (ie, não completamente vedada) da cor "laranja-mamãe-não-me-perca-na-neblina", as Mustangs. Parece que você vai desembarcar na Lua, não na Antártica.
Desembarque em Ferraz
Nenhum pingüim à vista, mas me prometeram alguns assim que melhorar o tempo. Somente uma Skua, uma ave de rapina cinza que parece uma gaivota mal encarada. Desembarquei na praia pedregosa da Estação Antártica Comandante Ferraz, aproveitando a carona do Chefe de Operações que veio checar dados para uma "faina" de carga e descarga.
Com o link da Telemar por satélite, que possibilita ligações VoIP para o Brasil como se fosse do PABX da Marinha no Rio de Janeiro, o pessoal da tripulação aproveita também qualquer oportunidade para vir para fazer um 21 para a família (21, 31, entendeu? dããã). Isso dá um gás para o pessoal que fica longos períodos aqui. Liguei a cobrar para meus velhos, será que vai sair caro? Enquanto teclo, há um pessoal vendo o jogo do Vasco em um telão, tudo graças à anteninha da Telemar.
(Disclaimer: não recebo jabá da Telemar)
Em Ferraz, acompanhei o Chefe da Estação enquanto dava o tour para seu sucessor no Grupo Base que chega. Dos 8 módulos (containers) originais de 1982, Ferraz cresceu para mais de 60 módulos, atualmente em reforma para interligar os módulos existentes em uma construção só e agregar mais alguns espaços. Pode dar a impressão de se estar em um navio em alguns momentos, mas o conforto é infinitamente superior. Fiquei bastante impressionado, surpreso até, com o conforto das instalações. As partes de convivência comum têm acabamento em madeira, o que é sempre agradável, a temperatura é mantida para ficar de camiseta, os camarotes são espaçosos o suficiente para permitir que duas pessoas não se matem. A Marinha conserva isso aqui com uma competência e um zelo de encher os olhos.
Na Estação me sinto mais à vontade, com o pessoal que conheci no percurso de avião. Fui promovido, virei o "Senhor Embaixador", algumas vezes sou o "Merré" (MRE). Todo mundo sabe que sou um nada hierárquico, mas o apelido pegou. Agora, o engraçado é que aparentemente tem gente que não entendeu que é um apelido.
Saída da Estação
Deve ter gente pensando que essa viagem é um hoax...."pô, esse cara diz que foi para a Antártica mas fica um tempão no messenger e blogando. Deve estar na praia no Rio". Para sair da Estação, é necessário estar acompanhado de um alpinista do Clube Alpino Paulista, que tem uma parceria com o Proantar para assessorar os militares e pesquisadores. No Brasil, quem entende de andar pelo gelo são eles, e graças a essa parceria o Proantar nunca perdeu alguém na Antártica, as ocorrências mais graves foram umas fraturas e um ou outro ataque cardíaco. Assim que o alpinista estiver liberado, vou bater perna por aí. Enquanto isso, fico aqui como se estivesse no escritório....blogando, blogando....
Piada de corno
Tocar instrumentos musicais parece pré-requisito para fazer parte do Grupo Base que assumirá a próxima temporada. Os caras vieram com um verdadeiro arsenal musical, violões, contra-baixo elétrico, estúdio portátil, etc. Diante da preferência musical de alguns por músicas sertanejas, o alpinista comentou "Pô, só tem música de corno, meu!". A resposta de um oficial: "Por que você acha que esse povo vem pra cá....?"
Nota escato-ecológica
Dei um cagãozinho na Estação. Ele será devidamente acondicionado e congelado, para depois retornar ao Brasil, de acordo com as normas estabelecidas no Protocolo de Madri. Bostex internacional.
14 fevereiro 2006
Dia 3. Chegada.
13 fevereiro 2006
Dia 2. Punta Arenas.
Viagem tranquila. Tres horas no Hercules para chegar a Pelotas e hoje mais 6 horas para chegar a Punta Arenas. O unico temor, verdadeiro panico, era o risco de perder o voo por conta de nao ser acordado no hotel.
Viajar de Hercules eh bastante desconfortavel, especialmente para alguem com quatro parafusos de titanio nas costas, mas eh melhor do que BRA e Gol. Somos por volta de 50 pessoas: alguns pesquisadores, um alpinista do Clupe Alpino Paulista (que assessora o pessoal na EACF, gracas a isso o Brasil nunca perdeu alguem na Antartica, salvo por ataque cardiaco), o Grupo Base que rendera o atual pessoal na Estacao pelo proximo ano e engenheiros e tecnicos do Arsenal da Marinha que darao continuidade as reformas na estacao.
Em Pelotas (eita lugarzinho feio), a Estacao de Apoio Antartico da UFRG nos deu a andaina (aquele saco que faz as vezes de mala para marinheiros) com a roupa antartica - verdadeiro arsenal contra o vento e o frio, bastante intimidador.
Punta Arenas me lembra um pouco Hobart. Nao soh pelos carros aqui serem os mesmos carros orientais da outra margem do Pacifico. Ambas as cidades tem aquela coisa de altas latitudes, espacos muito amplos, a luminosidade de um jeito diferente que nao consigo explicar, ventos cortantes arrastando curiosas formacoes de nuvens a altas velocidades. Parece que o teto eh mais baixo, mas o vao livre eh maior.
Nao tive tempo de fazer nada ainda, vim direto para o cybercafe checar email e tomar cafe assim que sai do hotel. O grupo foi para a Zona Franca, mas eu preferi bater perna (terei outras oportunidades de ir ao duty free no retorno por via comercial).
Venho lendo um livro de E. Lucas Bridges em sua edicao argentina, Os ultimos confins da Terra, sobre os primeiros estabelecimentos de missionarios ingleses na Terra do Fogo. Fantastico, recomendo. Achei, portanto, que estava com o portunhol afiado, mas foi dificil encontrar "el cajero automatico" - um tanto frustrante.
Me voy. Tenho que descobrir se o embarque para a Ilha do Rei George amanha foi confirmado.
10 fevereiro 2006
Garota, eu vou para a Antártica
Caixa de entrada no trampo vazia.
Passagens emitidas.
Meu cão é despachado hoje para Santos.
Roupas e botas novas compradas. Mala (mentalmente) pronta. Vou tirar a poeira do mochilão.
Amanhã eu embarco para o Rio, de lá um Hércules C-130 me leva para a Antártica. Ilha do Rei George, arquipélago das Shetland do Sul, Estreito de Bransfield.
Garota, eu vou para a Antártica. Volto à América de navio pela Passagem de Drake. Carnaval em Ushuaia (alalaô ôôô ôôô, mas que calô ôôô ôôô). Terra do Fogo e Cabo Horn. De lambuja um fim de semana na balada em Buenos Aires. Um mês fora no total (tentarei postar, mas não sei quando terei acesso à internet - de qualquer forma faço um relato completo depois).
Ainda não caiu a ficha. Vou realizar o sonho de uma vida antes dos 30 anos. Depois dessa viagem, terei que achar uma nova obsessão ou me tornarei uma versão daquela crônica do Veríssimo, sobre o homem que atingiu a perfeição e depois passou a vida calado, sorrindo para o vazio com um jeito sacana, bolinando o gelo no whisky.
Garota, eu vou para a Antártica.
ps: frase do meu velho quando eu contei sobre minha viagem "Olha, leva agasalho, filho..."




